              Martini Seco
            Fernando Sabino




               5 Edio


             Editora Record




Biblioteca Pblica Estadual Luiz de Bessa


               Digitao:
        Patrcia Torres do Amaral
Aquilo que no sabes  tudo que sabes.
                            T.S. Eliot
     Na noite de 17 de novembro de 1962 ocorreu numa
delegacia de polcia do Rio de Janeiro uma tragdia em
misteriosas circunstncias, jamais esclarecidas. O que se segue 
uma reconstituio, o tanto quanto possvel fiel, dos fatos que
conduziram a esse terrvel desfecho.
     Como poder ter sobrevivido um testemunho do que se
passou,  novo mistrio que ficar para sempre insolvel. Tudo
comeou cinco anos antes, precisamente na mesma data, ou seja,
no dia 17 de novembro de 1957.
Primeiro
                                  1

     Um homem e uma mulher entraram num bar, sentaram-se e
pediram martini seco. Enquanto o garom os servia. Ela foi ao
telefone, ele foi ao toalete. Quando regressaram, ao tomar a
bebida, a mulher caiu fulminada.
     Aproveitando    a    confuso      que    se    seguiu,   o   homem
desapareceu. A princpio a polcia sups que se tratasse de
suicdio. Na bebida ingerida havia uma dose mortal de estricnina.
Apuraram a identidade da mulher, localizaram e prenderam seu
amante. Era ele.
     O homem se defendeu como pde:
     - Foi suicdio - repetia, desesperado.
     - Ento por que voc fugiu?
     - Nessas horas a gente no pensa em nada, perde a cabea.
     - Voc se aproveitou da ausncia dela para pr o veneno.
     - Ela  que aproveitou da minha ausncia para se matar.
     - Por que ela havia de se matar?
     - Vivia dizendo que acabaria fazendo uma loucura e que a
culpa seria minha. Fez de propsito, para me culpar.
     - Voc quer dizer que algum  capaz de morrer de propsito
s para pr a culpa noutro?
     - De que no  capaz uma mulher?
     - Isso no prova nada: a culpa foi sua mesmo.
     Ele   acabou        confessando.     No        julgamento,    porm,
surpreendeu a todos, novamente alegando inocncia, a confisso
havia sido extorquida sob tortura. Foi absolvido por falta de
provas. E ningum mais teve notcias dele.
                               2

     O comissrio Serpa, sem palet, mangas arregaadas,
gravata frouxa, veio da sala dos fundos atender o telefone no seu
gabinete:
     - Delegacia de polcia? Ele mesmo. Ah,  voc, Janete?
     Ficou um instante a escutar, olhando distraidamente as
cartas de baralho que tinha na mo:
     - Eu ia lhe telefonar, meu bem, juro. Mas passei um dia
ocupadssimo, voc nem imagina. Talvez a gente possa jantar mais
tarde, depois do espetculo.
     Ao fim de outra pausa:
     - Gostei sim, quem  que disse que no gostei? Quando voc
entra no palco, toma conta. No fim eu quis ir l abraar voc, mas
no dava, tinha muita gente. Estria  assim mesmo. O final  que
achei muito confuso. A gente no entende quem  doido, quem
no . Aquilo no ficou muito claro no. Ah,  para ser assim
mesmo? Bem, assim , se lhe parece...
     Foi interrompido pela entrada do guarda conduzindo um
preso:
     - Comissrio, est aqui o homem.
     Serpa desligou o telefone, encaminhou-se para a sala dos
fundos:
     - No vou poder interrogar agora no, Fortunato - disse de
passagem.
     - Traga outra hora.
     - E a mulher, o senhor vai atender?
     - Que mulher?
     - Essa que est a fora a h meia hora.
     - Que  que ela quer?
     - Registrar queixa.
     - Atende voc mesmo.
     - Ela disse que s com o comissrio.
     - Por que s comigo? Tudo nesta delegacia  s comigo.
     Resignado, mandou que o guarda fizesse a mulher entrar. O
preso, sentado no banco junto  parede, esperava pacientemente.
     Era uma mulher de seus trinta e poucos anos, vestida com
certo apuro e de feies bonitas, apesar da preocupao que lhe
anuviava o rosto. Um pouco maltratada pelo tempo - concluiu ele
rapidamente,   depois      de   examin-la,   sem   maior   interesse.
Acomodou-se  sua mesa, mandou que ela se sentasse na cadeira
em frente. Deu de olhos com o preso, chamou o guarda:
     - Fortunato! Leve esse homem daqui.
     Depois que o guarda saiu com o preso, voltou-se para a
mulher:
     - E ento?
     - Meu nome  Maria Miraglia - disse ela, com intensidade.
Sou casada com Amadeu Miraglia.
     - Com quem?
     - Amadeu Miraglia. O senhor j deve ter ouvido falar nele.
     - No tive o prazer. Alguma coisa de especial com relao a
seu marido?
     Ela respirou fundo, aborrecida:
     - Francamente, comissrio, o senhor me deixa confusa. No
sei por onde comear.
     - Me disseram que a senhora veio registrar uma queixa.
Comece pela queixa.
     - Vim registrar uma queixa sim. Contra meu marido.
     - Quem  seu marido, posso saber?
     - Amadeu Miraglia.
     - A senhora j disse. Mas posso saber quem  ele, na ordem
das coisas?
     - O senhor no sabe mesmo?
     - Como  que eu haveria de saber?
     - O senhor  da polcia, devia saber.
     - Posso descobrir, mas no adivinhar. Se soubesse, no
estaria perguntando. Talvez se a senhora mesmo me dissesse...
     Ela se ergueu vivamente:
     - Comissrio, Amadeu Miraglia  um assassino.
     Serpa olhou pensativo as cartas do baralho que ainda trazia
na mo, gritou em direo  porta:
     - Fortunato!
     Quando o guarda apareceu, estendeu- lhe as cartas:
     - Avise ao pessoal l dentro que pode continuar sem mim.
Voltou-se para a mulher:
     - Muito bem: um assassino. Amadeu Miraglia... No, no sei
de quem se trata. No conheo pelo nome todos os assassinos
desta cidade. Quem  que ele assassinou?
     - A mulher dele. Mas no ficou provado.
     O comissrio olhou-a, desconfiado:
     - A mulher dele no  a senhora?
     - Eu digo a outra. A amante, naquele tempo. Foi antes de se
casar comigo. Comissrio, o senhor h de achar estranho o que
vou lhe contar.
     - Aqui dentro a gente no estranha nada. Pode contar.
                                   3

        Quando a mulher terminou o seu relato, Serpa mandou
chamar o escrivo:
        Motinha, esta senhora aqui est querendo registrar uma
queixa contra o marido.
        Muita coisa naquela histria no fazia sentido. Ela trouxera
recortes de jornais sobre o crime, para comprovar o que dizia.
Haviam sido encontrados ao mexer nos guardados do marido. At
ento ela no sabia de nada. A partir da  que ele comeou a
ameaar mat-la tambm e depois dizer que tinha sido suicdio.
        - Amadeu Miraglia...  isso mesmo - comentou o escrivo:
        - Matou a mulher dele num bar aqui perto, j faz alguns
anos.
        - Perdo, a mulher dele sou eu - interveio ela.
        Motinha se esquivou:
        - Bem, no estou muito a par... Bira trabalhou no caso, deve
se lembrar melhor.
        - Ento leve-a com voc para lavrar a queixa - encerrou
Serpa: - E me chame o Bira.


        Havia dito a ela que uma queixa no adiantava nada. Com
queixa ou sem queixa, o marido quisesse mat-la, matava mesmo
e estava acabado. Melhor seria ento pedir garantia de vida.
        - Que garantia eu posso Ter vivendo ao lado dele o tempo
todo?
        - Podamos cham-lo aqui, adverti-lo...
        - Pelo amor de Deus, no! Ele sabe como sair dessas
advertncias. Pois da outra vez no se livrou, depois de Ter
matado e at confessado? A queixa  a minha garantia. Se ele me
matar, desta vez ao menos fica provado.
     Bira se apresentou ao comissrio, enquanto ela registrava a
queixa na outra sala:
     - Me lembro perfeitamente. Envenenou a mulher.
     - Constou suicdio - atalhou Serpa: - Acabou absolvido.
     - Suicdio nada, comissrio. O homem confessou tudo.
     - Disse no jri que foi trabalhado aqui dentro.
     - Trabalhado? Mal encostamos a mo nele! Deu o servio na
maior moleza.
     Teve um detalhe que na poca me deixou meio aporrinhado.
No jri ele falou uma poro de coisas contra ns, deu meu nome.
Os jornais ento publicaram, saiu at meu retrato. S que meu
nome saiu errado: saiu com o nome do comissrio Lira.
     - Como  que eu no me lembro desse caso?
     - O senhor ainda no tinha sido transferido para c. Foi no
tempo do comissrio Lira. Tem uns cinco anos, da pra mais.
     Serpa examinou com curiosidade os recortes que a mulher
deixara sobre a mesa:
     - Diz aqui que havia outro suspeito, um garom.
     - Isso foi no princpio. Logo depois vimos que tinha sido ele
mesmo.
     O guarda Fortunato surgiu  porta:
     - Comissrio, quer interrogar o homem agora?
     Serpa o despachou com um gesto irritado, voltou-se para o
investigador:
     - Me conte essa histria.
     Bira contou: estava de servio com o comissrio Lira, e o
garom veio avisar que tinha uma mulher morta num bar ali
perto. Foram at l, quando chegaram a mulher ainda estava
quente. O homem havia fugido.
      - No encontramos ningum mais. Se tinha algum fregus
na hora, todo mundo se mandou. S pegamos o garom para
interrogar. Era um bar pequeno, fechado, desses com pretenso a
elegante. Os dois haviam entrado juntos, pediram a bebida...
      - Que bebida?
      - Martini. Martini seco, se no me engano. Por qu?
      - Por nada. Continue.
      Depois que o garom atendera o casal, ela havia ido ao
telefone, ele ao toalete:
      - Voltaram para a mesa, ela tomou a bebida e p! Caiu
morta. Ele tinha posto estricnina no clice dela.
      - E o clice dele?
      - Que  que tem o clice dele?
      - Fizeram percia no clice dele?
      Bira no se lembrava. Se havia feito, nada ficara apurado:
      - Por qu? O senhor acha que podia Ter sido pacto de morte,
ou coisa parecida?
      - No acho nada, estou s perguntando. Para quem ela tinha
ido telefonar?
      - Isso tambm no ficou apurado no. S a mulher podia
informar, e ela estava morta. Deve Ter sido para o outro. Era uma
mulher bonita. E mulher bonita, j sabe, se o marido matou, tem
sempre um outro.
      Contra a sua vontade, Serpa comeava a se interessar:
      - Gostaria de ver esse processo.
      - O senhor no pode requisitar? O Motinha naquela poca...
      - Deixa, que depois eu me entendo com o Motinha. Por hora
 s, Bira.
                                 4

     A mulher parecia mais aliviada:
     - Comissrio, no sei como lhe agradecer. O seu Motinha foi
muito amvel, registrou a queixa como eu queria. Me deu at uma
certido, olha aqui.
     E exibiu a certido. Depois de passar os olhos, Serpa
devolveu-a com ar srio:
     - Muito til em caso de perigo: cuidado! Essa mulher est
ameaada de morte pelo marido. Mas sente-se um pouco, vamos
conversar.
     Ela o olhou, desconfiada:
     - No posso me demorar. Daqui a pouco Amadeu chega do
trabalho, tenho de providenciar o jantar. Se chegar antes de mim,
corro um risco muito grande.
     Serpa estava disposto a puxar por ela:
     - Risco de que, precisamente?
     - Ora, de qu. J no lhe disse? Risco at de envenenar a
comida, por exemplo.
     - Se ele quisesse mat-la, j tinha matado.
     Ela acabou se sentando automaticamente na ponta da
cadeira:
     - O senhor  que pensa. Eu me defendo.
     - Ainda no fiquei sabendo que motivo ele tem para querer
mat-la.
     - Precisa de motivo? Ele me odeia,  este o motivo. Acha que
sou a desgraa da vida dele. Vive se queixando. Diz que eu gasto
tudo que ele ganha em roupas e futilidades - coisas assim.
     - De fato,  bonito seu vestido - ele comentou, lisonjeiro. -
onde  que seu marido trabalha?
     - At h pouco tempo no trabalhava. Chegamos a passar
dificuldades.
     Recentemente arranjou emprego numa firma comercial.
     - Vocs tm filhos?
     - Por que est perguntando isso?
     - Por que se no tem...
     - No temos no.
     - ...podiam se separar, e estava resolvido.
     - Se fosse assim to fcil! O senhor no sabe de que ele 
capaz. A  que me mata mesmo. No me larga nem um minuto. E
no trabalho, fica telefonando a todo instante para saber onde
estou, o que estou fazendo.
     - Ciumento, ento - concluiu ele, balanando a cabea.
     Ela sorriu, embaraada, dizendo que no dava motivo para
cime.
     - E se desse?
     - O que  que o senhor quer dizer com isso? - estranhou ela.
     - Nada. Esquea.  que eu estava pensando...
     Ela j no o ouvia:
     - Tudo que eu como pode estar envenenado. Ontem, antes
de me deitar, ia tomar um copo de leite, fiquei desconfiada, fiz ele
provar primeiro. Ele ento riu e jogou fora o leite, dizendo que
ainda no havia chegado a minha hora, quando chegar eu nem
vou perceber. No caf da manh, no almoo, no jantar, a todo
momento tenho de ficar atenta... Na minha casa, at o ar parece
envenenado.
     - E por que haveria de ser veneno? Ele no poderia usar de
outro recurso?
        - O plano dele  me matar como matou a outra. Para no
despertar suspeitas.
        O   comissrio      ficou   um   instante   pensativo,   tentando
entender. Acabou sacudindo a cabea e se erguendo, impaciente:
        - Quer saber minha opinio? No acredito que ele pense em
mat-la. Est fazendo isso com algum objetivo. Se ele no
quisesse despertar suspeitas, comeava por no lhe dizer nada. E
depois, com o passado que ele tem, se j se meteu numa, no vai
se meter noutra, que desta ele no escaparia.
        Ela tambm se ergueu, com ar melindrado:
        - Para mim no tem importncia que o senhor acredite ou
no. J que no poderia mesmo fazer nada.. O que interessa  a
minha queixa, para ficar provado, e esta eu j fiz. Agora,
comissrio, me desculpe, mas tenho de ir andando. Posso levar
isso?
        Recolheu os recortes de jornal, guardou-os na bolsa. Ele
acompanhou at a porta:
        - Espero tornar a v-la. E bem viva, como hoje... Como 
mesmo seu nome?
        - Maria Miraglia.
        - Volte sempre, Maria. Estamos aqui para servi-la.
                                5

     Motinha, o escrivo, andava preguiosamente pela sala,
palito de fsforo no canto da boca, mos nos bolsos, puxando a
cala para baixo e forando os suspensrios. Serpa, cadeira
reclinada para trs, pernas esticadas, ps cruzados sobre a
extremidade da mesa, observando-o, abstrado:
     - Mulherzinha estranha essa, hein, Motinha? - comentou.
     - Estranha, mas tem l o seu lugar - tornou o outro: -  uma
mulher interessante.
     - Pode ser. Que  que voc acha desse caso?
     - Do Miraglia? Sei l... Tenho visto coisas. No sei  como ele
consegue arranjar tanta mulher bonita para matar. Se bem me
lembro  um sujeitinho meio insignificante.
     - Ele matou mesmo a outra? Com toda certeza, quem  que
pode ter? O caso no foi to simples assim. O pessoal da tcnica
andou falhando, os jornais fizeram barulho, a Central acabou
avocando o inqurito. Denunciaram o Miraglia na base de uma
confisso meio velhaca, depois de um trabalho medonho, eu
mesmo disse: besteira! O homem sai livre! E o homem saiu livre.
     - Tem coisa na histria dessa mulher - insistiu Serpa: - coisa
que no est bem explicada.
     O escrivo parou, palitou os dentes com o pau de fsforo,
atirou-o no cho:
     - Serpa, eu vou lhe dizer uma coisa: em trinta anos de
polcia, confesso que poucas vezes vi alguma coisa que estivesse
bem explicada.
     O comissrio se ergueu, foi at a porta, gritou pelo guarda:
     - Fortunato!
     O guarda se apresentou.
     - Me chame o Bira.
     - Bira foi ao caf - informou o guarda.
     - Mande ele falar comigo assim que voltar.
     - Comissrio, quando o senhor quiser interrogar o homem...
     - Quando eu quiser eu aviso. Agora v para seu posto.
     Voltou para o meio da sala, dirigindo-se ao escrivo:
     - Esta  a delegacia mais anarquizada de toda a cidade. No
sei como voc agenta servir aqui durante tantos anos.
     - No tempo do Lira ainda era pior.
     - Gostaria de Ter uma conversa com ele.
     - O Lira est aposentado.
     - Eu sei. Voc tem o telefone dele?
     Algum tempo depois o Bira se apresentava:
     - O senhor quer falar comigo comissrio?
     - Quero que voc me traga o homem aqui.
     - Que homem?
     - Amadeu Miraglia.
     - Mas ele sumiu no mundo! Nunca mais ouvi falar...
     - No sumiu no. Ele  o marido daquela mulher que saiu
daqui. Motinha tem os dados todos, pegue l com ele. Me traga o
homem aqui.
                                 6

     Naquela mesma tarde, Serpa conversou ao telefone com o
ex-comissrio Lira. Depois de desligar, acendeu um cigarro, foi at
a janela e ficou a olhar a rua. Anoitecia, e aos poucos a sala ia
ficando escura, sem que ele se lembrasse de acender a luz. Um
homem surgiu  porta, vacilante, avanou uns poucos passos sala
adentro, sem ver ningum, parou. Serpa se voltou, ambos fizeram
um movimento de susto quando deram um com o outro. Serpa
levou instintivamente a mo  cintura, embora o coldre com o
revlver estivesse dependurado, junto ao palet, no cabide a um
canto da sala. Avanou rpido at a parede, acendeu a luz:
     - Quem  voc? Fortunato!
     Ambos    ficaram    momentaneamente       ofuscados     com   a
claridade.
     - Comissrio Serpa? - o homem perguntou, apertando os
olhos.
     - Fortunato! - o comissrio tornou a gritar.
     O guarda surgiu  porta, esbaforido, Serpa apontou o recm-
chegado:
     - Como  que esse homem entrou aqui?
     O guarda olhava um e outro, atrapalhado, gaguejando,
pedindo desculpas: no vira nada, no sara da entrada nem um
instante. Serpa mal-humorado, mandou que ele se fosse, voltou-se
para o homem:
     - Quem  voc? Que deseja?
     - Meu nome  Amadeu Miraglia - disse o outro com voz
sumida.
     O comissrio o olhou um instante, em silncio. No o
imaginava assim, plido, franzino, ombros cados, gestos contidos.
Ao   contrrio,     pensava   num   homem    desenvolto,   falastro,
cafajeste.
      - Sente-se.
      O homem obedeceu, sentando-se na ponta da cadeira.
Exatamente como sua mulher. A voz era baixa, quase um
sussurro:
      - Comissrio o senhor vai achar estranho o motivo que me
traz aqui.
      Serpa no pde deixar de rir:
      - Aqui dentro a gente no estranha nada, Miraglia. Pode
dizer.  s falar um pouco mais alto, para que eu possa escutar.
      - No sei se o senhor j ouviu falar em mim.
      - Confesso que hoje no tenho ouvido outra coisa.
      O homem se perturbou:
      - No tem ouvido? Como assim? Pois eu... Eu no tinha o
prazer de conhec-lo pessoalmente. Conheci bem foi o antecessor,
o comissrio Lira... Que fim levou? Me lembro muito bem dele.
      - Ele tambm se lembra muito bem de voc. Aposentou-se.
      - Merecido. Merecido. Andava precisando mesmo de um
descanso.
      - Quem continua aqui conosco  um velho amigo seu -
cortou Serpa, em tom casual: - O Bira.
      - O Bira? O investigador Ubirajara? - Amadeu Miraglia
sacudiu a cabea: - No, comissrio, no posso dizer que ele seja
um amigo meu.  um homem violento, o senhor sabe disso. Mas
j vejo que o senhor est par da minha histria. Da minha triste
histria.
      - A sua triste histria - repetiu o comissrio, como um eco.
      - O caso foi encerrado h muito tempo.
      - Eu sei. O que  que o traz aqui?
      - O senhor sabe que tive a desgraa de me ver envolvido na
morte daquela mulher...
      - Voc h de concordar que desgraa maior foi dela. Mas
olha s quem est a.
      Era o Bira que vinha entrando:
      - Comissrio, deixa comigo que eu trago o homem. Motinha
me deu o endereo. Disse que a mulher dele...
      O investigador se deteve, perplexo.
      Amadeu Miraglia se ergueu instintivamente, assustado.
      - Estvamos falando justamente em voc, Bira - e o
comissrio riu, apontando o outro: - Como voc v, foi mais fcil
do que voc imaginava: olha o homem a. Pode ir agora. Se
precisar de voc, eu chamo.
      Com a sada do investigador, Amadeu tornou a sentar-se,
aliviado:
      - Sofri o diabo, comissrio. Me maltrataram, at choque
eltrico me deram, com um aparelho especial.
      - Isso no se usa aqui, fique sabendo.
      - Perdoe, nenhuma ofensa. Nenhuma ofensa. No vim aqui
para me queixar. Ou por outra: vim exatamente para isso.
      - Isso o qu? Acho bom voc se explicar melhor.
      - Para que o senhor entenda,  preciso antes que eu
esclarea: quando estava pensando em me casar com Carmem...
      - Carmem? O nome dela no  Maria?
      Amadeu o olhou com surpresa:
      - Como  que o senhor sabe o nome da minha mulher?
      Serpa lastimou o lapso. Retrucou, evasivo:
      - Sabe-se mais sobre sua vida do que voc pensa.
      Depois de cauteloso silncio, em que parecia estudar o que
dizer, Amadeu informou que Carmem era a outra:
     - A que suicidou. - E prosseguiu, dizendo que aquele suicdio
o deixara mal: foi preso, levado de c para l, perdeu o emprego,
ficou desmoralizado. Em resumo: sofreu o diabo. Mas acabou
absolvido, graas a Deus reconheceram sua inocncia. E o caso foi
ficando esquecido. Ento conheceu Maria, casou-se com ela: - Pois
bem, ela agora descobriu tudo e no me perdoa, est ameaando
fazer o mesmo: suicidar-se como se eu a tivesse assassinado. A
princpio no levei a srio, mas ela tanto insistia, que comecei a
ficar apreensivo. Um incidente ontem  noite me alarmou, e
resolvi, pelo sim, pelo no, vir me aconselhar com o senhor.
     - E o que  que aconteceu ontem  noite?
     - Imagine o senhor que ela ia tomar um copo de leite antes
de se deitar, fiquei desconfiado, insisti em provar. No deixei que
tomasse, tive de jogar fora: o leite estava envenenado.
     - Como  que voc sabe que estava envenenado?
     - Eu provei: tinha um gosto esquisito.
     - O que no quer dizer que fosse veneno.
     Calaram-se ambos. Serpa esperava que o outro continuasse,
mas ele permanecia em silncio.
     - Por qu? - perguntou afinal.
     - Perdo?
     - Por que ela haveria de se suicidar?
     Amadeu hesitou, como se no soubesse o que dizer.
     - Vocs dois esto me escondendo alguma coisa - arriscou o
comissrio.
     - Ns dois?
     Resolveu abrir o jogo:
     - Voc e sua mulher. Ela esteve aqui.
     Contou-lhe e, poucas palavras que ela viera registrar queixa
contra ele:
     - Disse que voc est pensando em mat-la, como matou a
outra.
     Amadeu se erguera , perturbado, mas voltou a sentar-se:
     - Bem que eu desconfiava. Ento estou mesmo perdido.
     - Como matou a outra - repetiu Serpa: - Voc matou a outra.
     - O senhor acredita realmente que fui eu, comissrio?
     Serpa apontou-lhe o dedo ameaador:
     - Escuta Miraglia: eu no trabalhei no seu caso, de modo,
que para mim, ali ainda tem muita coisa mal explicada. Mas uma
delas  clara feito gua: voc matou aquela mulher. Como
conseguiu escapar, eu no sei. No seria difcil reabrir o processo.
     Amadeu no se deixou intimidar:
     - Perdoe, comissrio, mas no vejo como. Ficou claro como
gua  que Carmem se suicidou. Tanto assim que o jri me
absolveu por unanimidade. Outro no meu lugar a teria matado
mesmo. Eu amava Carmem loucamente, ia me casar com ela.
     - Voc no foi o primeiro a matar a mulher que amava
loucamente. Acontece nas melhores famlias. Mas desta vez
cuidado conosco.
     - Que adianta ter cuidado? Desta vez eu no escapo. Agora 
que ela vai mesmo se matar. Por isso veio aqui. O senhor quer
coisa mais clara? Com a queixa dela, agora, se matando, vo
achar que fui eu.
     O escrivo ia passando em frente  porta, no corredor. O
comissrio o chamou:
     - Motinha, vem c! Este  o Amadeu Miraglia. Veio aqui dizer
que a mulher vai se matar e pr a culpa nele, como fez a outra.
     Motinha riu:
     - Vamos chamar o Bira para dar um servio nele, ver o que
se apura.
     Amadeu no achou graa:
     - Aquele homem  um monstro, comissrio. Sabe torturar
sem deixar marcas.
     - Eu em seu lugar no diria essas coisas aqui dentro.
     - Vou lhe dar um conselho, Miraglia - e o escrivo tambm
se fez srio: - Por que voc no se mata e pe a culpa em sua
mulher?
     Depois que o escrivo se foi, Amadeu Miraglia se levantou,
vendo que no havia mais nada a fazer ali:
     - Se ela se matar...
     - Trate de impedir que ela se mate - atalhou o comissrio.
     - Isso  fcil de dizer. Comissrio, um dia, eu era menino,
meu pai me deu um passarinho. Eu cuidava dele o dia inteiro, era
a alegria da minha vida. Dava alpiste, dava gua, tirava da gaiola,
brincava com ele, Pois bem, um dia o passarinho amanheceu
morto.
     - Envenenado? - gracejou Serpa.
     - No - o outro respondeu, srio: - Morto mesmo, como um
passarinho.
     - Moral da histria: com passarinho no se brinca.
     - Justamente. Meu pai ento disse que eu  que tinha
matado, me ps de castigo.
     - Pois foi voc mesmo. Ou vai querer dizer que o passarinho
se suicidou.
     Amadeu parecia no ter escutado:
     - No sei o que h comigo. Tudo que minhas mos tocam,
logo definha e morre. Tudo que eu amo se perde para sempre.
Carmem era a alegria da minha vida...
      - No vem com essa conversa de poeta no Miraglia. Em que
momento voc ps o veneno no clice dela? Quando ela foi
telefonar?
      - No pus veneno no clice de ningum. Eu tinha ido ao
toalete. Quando voltei...
      - Para quem ela telefonou?
      - Isso  um interrogatrio?
      - Se no quiser, no responda.
      - Tudo j foi pisado e repisado.
      - Consta que voc tinha cime dela. Por causa disso  que
ela foi suicidada por voc.
      - Eu sei por que Carmem se suicidou.
      - Ah, sabe? Ento me conte. Talvez o caso fique esclarecido.
      - O caso j ficou esclarecido, comissrio. E o senhor insiste
em pr a culpa em mim. Todos me culpam, como no caso do
passarinho. O senhor quer me pr de castigo por aquilo que eu
no fiz.
      - Pois saiba que voc j est de castigo. Se alguma coisa
acontecer com sua mulher...
      - Ento me d garantias. As mesmas que o senhor deu a ela.
      - J sei: voc quer registrar uma queixa contra o suicdio da
sua mulher. Ora, Miraglia, fique sabendo de uma coisa: ns aqui
dentro s sabemos lidar com gente morrida e gente matada. De
modo que passe muito bem. E se alguma coisa acontecer...
                                7

     Mal o comissrio acabara de dar ordens ao investigador
Ubirajara, com minuciosas instrues, para vigiar Amadeu
Miraglia e sua mulher, ela irrompe na sala sem pedir licena:
     - Ele esteve aqui! Eu sei que ele esteve aqui. Vi quando ele
passou na esquina, vi quando entrou, fiquei esperando este tempo
todo, saiu ainda h pouco. Que  que ele veio fazer aqui?
     Serpa deixou-se cair na cadeira com um suspiro bem
humorado:
     - Veio falar na sua ameaa de se suicidar, como a outra.
     - Ento estou perdida. Ele j comeou a se defender, o
senhor no percebe?
     - O que eu percebo  que esse caso  muito louco. Mas
algumas coisas que ele diz fazem sentido. Se no, vejamos: da
primeira vez, escapou por pouco. Se matou ou no matou aquela
mulher, o certo  que escapou por pouco. Se a nova mulher dele
se mata, ele est ferrado. Alega que a sua queixa  exclusivamente
para incrimin-lo. A menos que...
     - O que  que o senhor ia dizendo?
     - Ele vacilou:
     - Bem... a menos que invertssemos os papis... E se em vez
de ameaada, passasse a ameaar seu marido?
     - Como assim?
     - Se comeasse a dizer que vai fazer com ele o mesmo que ele
fez com a outra? E que h de escapar como ele escapou... Hein?
     - Est falando srio, comissrio?
     - Bem,  s uma idia... Quem sabe?
     - Ele me mata primeiro.
         - No tem perigo. Mandei um investigador vigi-lo. Tem que
ser veneno. Mas cuidado, hein? S ameaar, veja l. Vocs tm
veneno em casa?
         - Ele tem: estricnina.
         - Por que diabo ele tem estricnina em casa?
         - Ele diz que  remdio, mas tenho certeza que  estricnina.
         Serpa levou a mo  testa:
         - No sei onde  que estou com a cabea... esquea isso, por
favor.
                                 8

     Quando o escrivo veio avisar que j ia embora, o comissrio
lhe disse que acabara de cometer uma leviandade:
     - Sugeri quela mulher que ameaasse matar o marido.
     - . Tambm  uma soluo.
     - E se ela levar a srio a sugesto?
     - Enquanto no v um cadver voc no sossega, hein,
Serpa?
     - Sugeri que ela ameaasse envenen-lo, para ver o que
acontece. Saber com quem est a verdade nessa histria. J no
estou entendendo mais nada.
     - O seu mal, Serpa,  querer entender as coisas. Estou aqui
a mais de trinta anos e s entendi uma coisa: que no  mesmo
para se entender nada.
     O   escrivo   saiu,   deixando   Serpa   sozinho.   O   guarda
Fortunato apareceu  porta:
     - Quer interrogar o homem agora, comissrio?
Segundo
                                 1
       Um homem e uma mulher entraram no bar, sentaram-se e
pediram martini seco. Enquanto o garom os servia, ela foi ao
telefone, ele foi ao toalete. Quando regressaram, ao tomar a
bebida, a mulher caiu fulminada.
       O comissrio Serpa se destacou na penumbra, no fundo do
bar:
       - Acenda a luz a! - ordenou ao garom.
       O garom obedeceu, e tudo se iluminou. Sem a luz discreta
de sempre, o pequeno bar perdia muito de seu ar fino e elegante,
revelando a relativa modstia do ambiente: pouco mais de meia
dzia de mesas ao longo da parede, um balco com algumas
banquetas, garrafas de bebida nas prateleiras com fundo de
espelho, e era s. Serpa adiantou-se at a mulher cada ao cho.
       - Muito bem, Janete. Gostei de ver. Pode se levantar agora.
Ajudou a moa a se erguer. Amadeu Miraglia permanecia mudo e
imvel, sentado  mesa, um clice vazio diante de si.
       - E agora, que  que eu fao? - Janete perguntou, satisfeita
com a sua atuao.
       - Mais nada. - Serpa se despediu dela com um beijo no rosto:
- Pode ir, meu bem. Mais tarde lhe telefono. Muito obrigado. Voc
 de fato uma excelente atriz.
       Depois que ela se foi, o comissrio se voltou para Amadeu:
       - Voc tambm trabalhou muito bem, Miraglia. V-se que
conhece o seu papel. Mas chegou a hora de esclarecer umas
coisas. E esclarecer direitinho, ouviu? O Bira est ali para
qualquer necessidade.
       O investigador acompanhava tudo junto do garom, ao
fundo do bar.
     - No  preciso ameaar - suspirou Amadeu, conformado. -
O que o senhor quer saber?
     - Tudo que se passou depois. Ela caiu, e voc? Ficou a
sentado? Saiu correndo?
     - Nem uma coisa nem outra. Chamei o garom pedindo
ajuda. Em vez de vir, ele  que saiu correndo. Eu apenas corri
atrs. Confesso que entrei que entrei em pnico. Vi logo que ela
tinha se suicidado.
     O garom se adiantou:
     - Eu no corri no senhor. Isso  mentira, comissrio.
     Era um homem de seus trinta anos, rosto srio, calva
precoce.
     Estava indignado:
     - Eu ajudei sim. Isto , procurei ajudar. Vendo que a mulher
estava morta, e esse homem fugindo...
     Serpa o conteve com um gesto:
     - Espere, que agora mesmo chega a sua vez.
     Voltou-se para Amadeu:
     - Por que voc viu logo que ela tinha se suicidado?
     - Por que ela j me havia falado em suicdio. Vnhamos
conversando exatamente sobre isso.
     - Sobre suicdio?
     - Suicdio e outras coisas.
     - Que outras coisas?
     Ele fez um gesto de contrariedade:
     - Comissrio, tudo j foi apurado. No encontraram provas
contra mim.
     - Sei disso. Ningum est contra voc.
     - Esta reconstituio  arbitraria e ilegal. O senhor no pode
fazer isso comigo.
      - S estou querendo esclarecer algumas coisas, e voc
concordou em colaborar. Por exemplo: voc disse outro dia que
sabia por que Carmem se suicidou.
      Pois bem: eu tambm gostaria de saber.
      - O caso est encerrado. J fui julgado e absolvido.
      - Posso pedir reabertura do inqurito.
      - O senhor no pode fazer isso.
      O comissrio perdeu a pacincia:
      - Quem  voc para me ensinar o que posso e o que no
posso fazer? Voc disse tambm que outro em seu lugar a teria
matado. Nega que disse?
      - Ento faa logo o que tem que fazer: me prenda, reabra o
inqurito, me indicie.
      - Prefiro fazer o que eu bem entender, se voc no se
incomoda.    Agora,   quero   fazer   apenas   algumas   perguntas.
Primeiro: voc sentou-se aqui com ela exatamente na posio em
que se sentou com Janete, no foi?
      - Janete?
      - Essa moa... Ora, Miraglia no se faa de desentendido.
Responda direitinho, seno ser pior para voc. Vamos de novo:
que foi que voc pediu ao garom?
      Amadeu, resignado, deixou cair ainda mais os ombros:
      - Dois martinis, eu j disse. Um para mim e outro para ela.
      Serpa, depois de examinar os clices, voltou-se para o
garom:
      - Eh, rapaz! Voc trouxe os clices vazios?
      O garom se instalara no seu posto atrs do balco:
      - No era para ser tudo figurao?
      No posso servir bebida antes de abrir o bar, o senhor sabe:
 da lei.
      S abre s seis da tarde.
      O comissrio j no o ouvia:
      - Muito bem. Depois ela foi telefonar, no ? Estava sentada
aqui...
      Sentou-se junto a Amadeu, tornou- se a erguer, foi ao
telefone no canto do bar:
      - Quanto tempo ela ficou no telefone? - gritou de l.
      - No tenho a menor idia - disse Amadeu: - fui ao toalete no
mesmo instante.
      Serpa veio voltando:
      - E quanto tempo voc ficou no toalete?
      - O tempo necessrio para urinar.
      - Quando voltou, ela ainda estava no telefone.
      - Estava se despedindo, presumo. Voltamos praticamente
juntos para a mesa.
      - Se despedindo de quem? Do outro?
      - Que outro?
      - Voc sabe muito bem que havia um outro.
      - Tudo que eu sei, depus no processo. Basta consultar os
autos.
      Serpa se plantou diante dele, mos na cintura:
      - Voc ainda vai se dar mal comigo, Miraglia. Pois saiba que
j estou consultando. E sei fazer voc falar.
      - No tenho a menor dvida disso.
      - Ento me fale no outro.
      - Seja como o senhor quiser. Havia um outro, sim.
      - E por causa desse outro voc a matou.
      - Por causa desse outro ela se suicidou.
      - Em que momento voc ps o veneno?
      - Em que momento ela ps o veneno, o senhor quer dizer.
      - Antes ou depois de ir ao toalete?
      Amadeu passou a mo pelo rosto, ar de cansao:
      - Comissrio, todos os mtodos de interrogatrio foram
usados comigo.
      Mesmo que eu fosse culpado, no iria cair num truque to
primrio como esse, de me confundir com perguntas.
      - Tanto iria, que caiu e confessou.
      - Confessei, mas no assim. Se o senhor est disposto a
fazer de novo o que fizeram comigo, pode mandar o escrivo bater
a confisso que eu assino. Tudo o que o senhor quiser. Estou
cansado...
      O comissrio comeou a andar pelo bar, falando mais para
si mesmo:
      - Vamos ser coerentes. Como  que eu posso acreditar nessa
histria? Que ela tomou o veneno e morreu, no resta dvida. Em
que momento esse veneno foi parar no clice dela  que  a
questo. A menos que ali o nosso amigo...
      Voltou-se para o garom. Este sacudiu com veemncia:
      - No, comissrio, por favor, no me meta mais nisso.
Tambm j passei meus apertos. Fui interrogado na poca, por
pouco no confesso. Tenho pacincia, mas desta vez prefiro ficar
de fora.
      Inesperadamente Amadeu interveio:
      - Ela pode muito bem ter despejado o veneno no momento
em que estvamos assim - e ps o brao no encosto do banco: -
Eu com o brao sobre o ombro dela e ela com a mo junto do
clice.
      Serpa se adiantou, interessado, apontou o clice:
      - Voc se esquece que esse clice a era o seu e no o dela.
      - Ento no sei. E desisto de saber. Foi algum mais,
enquanto eu estava no toalete.
      - Ningum mais se aproximou desta mesa, segundo o
depoimento do garom, que sacudiu a cabea, contrariado.
      - Ento caiu do cu dentro do clice - encerrou Amadeu: -
Como  que eu vou saber?
      - Caiu da sua mo dentro do clice - acusou o comissrio,
incisivo.
      - Ento prove.
      - Quer maior prova que sua confisso no inqurito?
      - Ento prove - insistia Amadeu, sem ouvir.
      Bira se destacou l do canto:
      - No adianta, comissrio. Da outra vez foi a mesma coisa.
S ficava assim: ento prove! Ento prove! O  sonso. Parece bobo
mas  muito vivo. S fazendo um servicinho nele.
      - Se for preciso voc faz - concordou Serpa.
      Amadeu se levantou:
      - Comissrio, desconfio que vou precisar outra vez de um
advogado.
      - Sente-se a, homem - ordenou Serpa: - Advogado para qu?
      - Requerer habeas-corpus.
      - Voc no est preso, essa  boa. Pode ir embora quando
quiser.
      - Neste caso, com licena.
      Amadeu ia saindo, Serpa o deteve:
      - Espere um instante: no pense que estamos te coagindo,
para extorquir confisso.
      - Absolutamente, comissrio - Amadeu respondeu com voz
sumida: - Nem me passou pela cabea.
     - Pode ficar tranqilo, que se quisssemos, o mtodo seria
muito outro.
     - Eu imagino.
     - Estou apenas me reportando a uma coisa que voc afirmou
espontaneamente outro dia l na delegacia: se fosse outro a teria
matado. Por qu? Me diga por que, e pode ir embora.
     - Comissrio, isso  uma longa histria.
     - Pois ento comece a contar, antes que seja tarde.
     - Nem sequer surgiu no processo.
     - Vai surgir agora.
     - Nunca contei a ningum...
     - Conte logo, homem de Deus.
     Amadeu tornou a sentar-se:
     - Carmem e eu ramos noivos, como o senhor sabe -
comeou, com voz hesitante: amos nos casar, estava tudo
preparado. Resolvemos apressar o casamento por que... Bem, por
que j vivamos juntos e ela estava esperando um filho.
     Serpa , atento, perguntou por que ele omitira aquilo no
inqurito.
     - No quis que a vida ntima de Carmem fosse discutida em
pblico. Soube respeit-la at depois de morta. Embora o
casamento, com aquele filho, tenha ido por gua abaixo.
     - No estou entendendo.
     Amadeu prosseguiu, voz cada vez mais baixa:
     - Fiz exame pr-nupcial e descobri que era estril, no podia
ter filhos. Apenas estril, compreende? O filho no era meu
portanto.
     Serpa o olhava, agora francamente impressionado:
     - Por isso voc a matou.
     Amadeu continuou, como se no tivesse ouvido:
     - Fiquei desesperado. Eu amava Carmem mais do que tudo
na vida. No queria perd-la. E havia o outro... Cheguei a pensar
em perdo-la, se ela se desfizesse do filho. Ela se recusou. Jurava
que o filho era meu, preferia morrer... - ele se endireitou: -  isso:
preferiu morrer.
     - Sua mulher sabe dessa histria?
     - Antes de casar no contei nada, por que se ela soubesse
no se casaria comigo. Mas depois que descobriu o processo e
tudo mais, tive de contar.  por isso que ela tambm quer se
matar. E o culpado serei eu.
     O comissrio o olhava confuso:
     - Espere um pouco, no estou entendendo. Por isso o qu?
     Amadeu pela primeira vez olhou o policial nos olhos:
     - O senhor no est entendendo por que no quer,
comissrio. Minha mulher tambm est esperando um filho.
     - Esperando um filho? Mas voc no disse que era...
     - E sou.
     A fisionomia do comissrio se iluminou:
     - Ah! Por causa disso  que voc est pensando em elimin-
la, como fez com a outra.
     - No, comissrio - Amadeu respondeu, com a voz pausada
de quem est no ltimo limite de pacincia: - Por causa disso ela
prpria est pensando em se matar. Por que ela sabe que eu sei
que o filho  de outro.
     - E quem  esse outro?
     - J se foi o tempo em que eu me martirizava tentando
descobrir. Descubra o senhor, que  da polcia e est to
interessado.
     Amadeu ergueu-se para sair. Bira que tentava acompanhar
a conversa, soltou uma gargalhada:
     - Agora estou entendendo.
     E fez com os dedos dois chifres na testa. Inesperadamente
Amadeu investiu contra ele, o investigador o conteve com um
murro. Depois sacudiu a mo no ar:
     - Sujeitinho engraado! Acabou de dizer que no se
importava!
     Amadeu comprimia um leno contra os lbios atingidos.
Serpa   o    dispensou,   batendo-lhe   no    ombro,     num     gesto
inesperadamente amistoso:
     - Pode ir embora, Miraglia. Desculpe o mau jeito.
     Vendo-o    afastar-se   em   passos     lentos,   fez   sinal   ao
investigador para     segui-lo, Mas antes de alcanar a porta,
Amadeu se voltou:
     - Comissrio, h uma coisa que eu no contei, para que o
senhor no pensasse que enlouqueci de vez. J que comecei a
apanhar na cara eu conto tudo. De uns dias para c, est
ameaando me matar. Diz que vai me envenenar como eu
envenenei a Carmem. Diz que vai por estricnina no meu copo.
     O comissrio caminhou at ele:
     - E voc no deu a menor importncia a isso? No  um
pouco estranho que voc tenha medo de que sua mulher se
suicide e no tenha medo que ela te mate? Para que voc tem
estricnina em casa?
     - Eu no tenho estricnina. Ela est cansada de saber que 
bicarbonato. Sofro de acidez, tenho uma lcera no estmago.
     - Voc no est com medo de que ela se suicide com
bicarbonato, est?
     - Ela pode perfeitamente arranjar estricnina como a outra
arranjou.
     - E no pode usar essa estricnina voc?
     - O senhor nem parece que  da polcia, comissrio. Pense
um pouco: ela nunca haveria de me matar, por que estaria
perdida, todo mundo saberia que foi ela. Pela mesma razo, se ela
se matar, todo mundo pensar que fui eu.
     O comissrio concordou com a cabea, mas no sabia o que
pensar:
     - Miraglia, voc tem o dom de me botar confuso. Como  que
voc tem tanta certeza disso?
     - Tenho certeza, por que se eu me matasse, todo mundo
pensaria que foi ela. Adeus, comissrio.
     Amadeu abriu a porta e saiu. Bira seguiu atrs. O garom
tornou a trancar a porta.
                                 2

     A ss com o garom, o comissrio voltou-se para ele:
     - Escute, Gensio... Seu nome  Gensio, no? Precisamos
ter uma conversinha. - Pediu antes que servisse um usque, para
arejar as idias. O garom se recusou:
     - O senhor me desculpe. Comissrio, mas no posso servir.
S abre s seis horas. Ordem da polcia. E meu nome  Genaro.
     - Voc se esquece que eu sou da polcia, rapaz.
     - Por isso mesmo. O senhor pode mandar me multar, no
pode? At me prender, fechar isto aqui.  sua jurisdio.
     Serpa se aboletou junto do bar, j pensando noutra coisa:
     - quando voc telefonou para a delegacia, o nosso amigo j
havia fugido?
     - Quando vi a mulher cair, deixei ele junto dela. Quando
voltei, ele tinha sumido.
     - Voltou de onde?
     - Da delegacia. Fui l avisar.  aqui perto.
     - Eu sei. Trabalho l. Por que no avisou pelo telefone?
     - Por que o telefone no estava funcionando.
     Serpa se encaminhou at o telefone, tirou o fone do gancho,
levou-o ao ouvido:
     - Est funcionando.
     O garom riu:
     - Foi consertado, comissrio. J faz tempo.
     - Espera l. E o comissrio comeou a bater com o dedo no
balco, escandindo as slabas:
     - Depois que voc serviu os dois, ele foi ao toalete, ela ao
telefone. E com ela o telefone funcionou?
     - O garom o olhava, estupefato:
     -  isso mesmo! No podia funcionar. Estava quebrado.
Como  que nunca me ocorreu isso?
     - E no ocorreu a ningum, na poca? No constou do
inqurito?
     - Que eu saiba, no.
     - E no lhe ocorreu botar veneno no clice dela enquanto
eles no estavam na mesa, hein?
     O garom brandiu a mo, como se repelisse a pergunta:
     - Que  isso, comissrio? O senhor est de brincadeira
comigo?
     - Algum batia insistentemente na porta.
     - V abrir, Gensio.
     - No posso - recusou-se o garom:
     - Ainda no  hora. E meu nome  Genaro.
                                 3

     Maria Miraglia continuou batendo na porta de vidro do bar.
O garom acabou indo dizer-lhe que sentia muito, mas s abria s
seis horas. Ela insistia em entrar, dizendo que tinha urgncia de
falar com o comissrio Serpa. Este ordenou que ela entrasse:
     - Que negcio  esse rapaz? Est pensando que isso aqui 
Inglaterra?
     - Fiquei esperando o senhor mais de uma hora no distrito -
disse ela: - S agora me informaram que estava nesse bar. - Olhou
ao redor, curiosa: - Ento foi aqui, hein?
     O comissrio se passou para a mesa. Sente-se, Maria. O que
 que tem de to importante para falar comigo desta vez?
     Ela se sentou a seu lado, mos no colo, postura rgida:
     - No deu resultado.
     - Que  que no deu resultado?
     - Tenho ameaado Amadeu como o senhor mandou, mas ele
no d a menor importncia. Ri na minha cara. Outro dia chegou
a pegar o vidro de veneno e me estendeu, dizendo: tome, despeje
no meu copo de uma vez, se voc  homem.
     - Se voc  homem?
     - Modo de dizer, comissrio.
     - Gostaria de Ter uma prova mais concreta...
     - Comissrio! - protestou ela.
     - Uma prova mais concreta de que ele pensa em mat-la.  o
que eu quero dizer. Ou que matou a outra. Ou que...Sei l! No sei
nem o que eu quero dizer. Estou farto deste caso. E depois?
Ameaou mat-lo com uma dose de bicarbonato?
     - Foi ele quem disse que  bicarbonato, no foi? Pois eu digo
que  estricnina.
     - Quer que eu acredite que seu marido cura acidez de
estmago com estricnina?
     - Sei que  estricnina por que dei para o gato e o gato
morreu. Est satisfeito?
     Serpa olhou para ela pensativo:
     - Seu marido  um infeliz, Maria. Hoje tivemos uma conversa
que me comoveu.  um infeliz.
     - Ah, ? Convenceu? Tiveram uma conversa. Interessante!
Gostaria de saber que conversa foi essa. Quem sabe o senhor me
convence tambm?
     O garom olhou o relgio, baixou a luz, deixando o bar na
penumbra, ps a tocar uma msica suave.
     - Que  isso rapaz? perguntou Serpa.
     - Hora de abrir, comissrio - e foi abrir a porta.
     O comissrio comeou a rir, dizendo para Maria:
     -  a nica pessoa que cumpre a lei neste pas.
     Como para confirmar, o garom veio trazer o usque que ele
havia pedido.
     Depois dirigiu-se a ela:
     - E a senhora?
     - Tome alguma coisa - Serpa sugeriu.
     - No costumo beber.
     - No faa cerimnia.
     - J que insiste - ela vacilou: - Eu aceitaria um martini seco.
     Ele a olhou, surpreendido, e ordenou ao garom:
     - Gensio, um martini seco para ela.
     Depois de atendida, ela se deixou ficar, olhos pregados nele:
     - Estou esperando, comissrio.
     - Esperando o qu?
     - Que o senhor me convena.
      Ele ficou calado um instante, a rolar com o dedo o gelo no
copo: - O que  que voc est esperando  um filho, Maria - falou
afinal.
      Agora ela  que se surpreendeu:
      - E se estiver? Eu sou casada no sou? A outra no era.
      - Eu sei de tudo, Maria.
      - O que  que o senhor sabe? Pode me dizer.
      - Que a outra no era.
      - E da?
      - E que o filho dela no era dele. Por isso ela se matou. Como
o seu tambm no .
      - Ah, no? E de quem , pode me dizer?
      - Sei l. Meu  que no .
      - Comissrio, por favor.
      - Pare de me chamar de comissrio - ordenou ele: No estou
de servio. Aqui sou um fregus como outro qualquer. Me chame
de Serpa, de voc.
      - Serpa voc... Ela o interrompeu, sorrindo - satisfeito?
      - Assim... Agora tome o martini, voc nem provou. Pode
tomar, no est envenenado.
      Maria pegou o clice e virou o martini de uma s vez.
Admirado, o comissrio ordenou:
      - Gensio, traga outro usque para mim e outro martini para
ela. Sem veneno.
      - Quer dizer que at voc acreditou nessa histria de que ele
no pode ter filhos - ela recomeou, depois que o garom os
serviu.
      - Por qu? No  verdade?
      - Ele pensa que . Por isso matou a outra. E por isso vai
acabar me matando: porque cismou que o filho no  dele. Eu sei
que no escapo. Estou perdida. Quando o ameacei de morte, como
o senhor sugeriu...
     - Voc... como voc sugeriu, ele disse que se eu tornasse a
falar nisso, ele se suicidava, e a culpa cairia sobre mim.
     - Era s o que faltava.
     - Eu no escapo, estou perdida. - repetiu ela e comeou a
chorar, a cabea no ombro dele.
     - Que  isso, Maria - reagiu ele, desconcertado, passando-lhe
o brao pelo ombro: - Perdida coisa nenhuma. Deixe comigo.
Enquanto voc estiver comigo ele no tem coragem. Agora esquea
um pouco isso, por favor. Nunca vi morte mais programada, puxa!
Olha a, tome seu martini. Vamos mudar de assunto, conversar
sobre outra coisa. Ou ento ficar assim, em silncio.
     Ficaram em silncio, quase abraados, como um casal
qualquer.
                                4

      Amadeu Miraglia irrompeu no bar. Sua mulher e o
comissrio se ergueram num movimento de surpresa. Eles o
apontou dramtico:
      - Eu sabia! Bem que eu desconfiava! Continuem! Por que
no continuaram?
      E avanou desajeitadamente contra o comissrio, tentando
agredi-lo.
      Serpa o dominou com facilidade, e o fez sentar-se  fora.
Ele escondeu o rosto com as mos, enquanto Bira cruzava a porta
do bar e vinha pachorrentamente encostar-se ao balco.
      - Deixe de bobagem Miraglia - disse Serpa com energia: - Se
voc est usando pretexto para matar sua mulher, no me envolva
nisso. E vamos aproveitar para pr as coisas a limpo de uma vez
por todas.
      - Eu estou perdido - falou ele, mos ainda cobrindo o rosto.
      - Agora  voc - retrucou o comissrio, sem se abalar: - Eu
sei que voc est perdido. Com essa mulher eu tambm estaria.
Mas de uma coisa pelo menos fiquei ciente: o senhor agora anda
ameaando se suicidar. Pode me dizer como? Com bicarbonato?
      - Ela  que anda ameaando me matar.
      - Voc j me disse. Foi plano meu.
      Amadeu levantou a cabea:
      - Plano seu? Ah, eu bem sabia que havia dedo de algum
mais nessa histria. Por muito menos vocs da polcia at me
arrancariam as unhas. Eu sabia que sozinha ela no teria
coragem.
      Serpa sorriu, irnico:
      - Eu no estaria to certo disso. Lembre-se do gato.
      - Que gato?
      - O gato no morreu envenenado?
      - Ah, ento foi ela que matou meu gato! E posso saber como
ela fez isso?
      - Com seu bicarbonato.
      Ele aprumou o corpo, vitorioso, tirando do bolso um
pequeno vidro:
      - No que o senhor muito se engana! Matou foi isto aqui! Fui
buscar l em casa, aquele ali est a prova! - e apontou o
investigador, que lia um jornal: - Procurei nos guardados dela at
encontrar!
      - Que  isso? - perguntou Serpa.
      - Estricnina!
      Maria que at aquele momento no dissera uma s palavra
nem fizera um s movimento, informou com voz calma:
      - Isso  o bicarbonato dele, Serpa. Ele mesmo me deu outro
dia para guardar, no lhe contei?
      Serpa tomou o vidro, examinou-o e depois atirou ao Bira:
      - Mande para a Percia ainda hoje.
      O investigador destampou o vidro, cheirou, ia metendo o
dedo para provar, o comissrio deu um grito:
      - No faa isso! Basta um grozinho na lngua e voc cai
morto.
      Assustado, Bira tapou o vidro e guardou-o no bolso. Serpa
estendeu uma caderneta a Amadeu:
      - Escreva a o endereo do tal mdico.
      - Que mdico?
      - O do exame pr-nupcial. Tambm estou pensando em me
casar.
     Depois que o outro atendeu, Serpa destacou a folha,
estendeu-a ao Bira:
     - Apanhe com esse mdico os dados sobre Amadeu Miraglia.
Se conseguir a ficha dele, com todos os exames, tanto melhor. Se
o mdico se negar, pacincia. Outra coisa: apure na Companhia
Telefnica se este telefone estava funcionando no dia... Virou-se
para Amadeu:
     - Que dia mesmo voc matou sua mulher, Miraglia?
     Amadeu j havia recuperado a calma:
     - Carmem se suicidou h cinco anos atrs, exatamente na
data de hoje.
     - Na data de hoje? - o comissrio deu uma gargalhada: -
Esta  a maior. Que coincidncia! Tipo do aniversrio bem
comemorado.  possvel at que o esprito dela esteja rondando
por aqui,  espera de uma oportunidade para se manifestar.
     O garom se adiantou:
     - Tenho certeza, comissrio, que o telefone andou enguiado
praticamente naquele ms inteiro.
     Serpa voltou-se para ele:
     - Ah, sim? E vocs nem para providenciar o conserto? Bom
servio, o deste bar. Por isso mesmo  que aqui tem tanto fregus.
     - Por isso mesmo - concordou o garom: - Desde que esse
a... Bem, depois que a mulher morreu aqui dentro, o bar nunca
mais foi o mesmo. O patro at pensou em vender... Acho mesmo
que ficou mal-assombrado. s vezes, quando estou aqui sozinho,
tenho a impresso de ver a mulher a estendida, morta, a lngua
de fora, a cara toda torcida.
     Serpa tomou o resto do seu usque e se ergueu:
     - Com essa eu me vou. Vocs ficam? Pois quando um de
vocs matar o outro, mande me avisar. Adeus, Gensio. Vamos
embora, Bira.
     - Adeus, comissrio. - respondeu o garom. - A bebida fica
por conta da casa. E meu nome  Genaro.
                                5

     Amadeu se deixou ficar em silncio, sentado ao lado de
Maria. Ela virou calmamente o resto do martini e olhou-o, 
espera.
     - Posso saber o que voc e aquele tira estavam fazendo aqui?
- comeou ele, afinal, com voz mansa.
     - Conversando.
     - Conversando sobre o qu?
     - Sobre voc.
     - Quando entrei, vocs no estavam conversando. Estavam
abraados, assim.
     E ele passou o brao sobre o ombro dela.
     O garom ps nova msica e se aproximou:
     - Querem tomar alguma coisa?
     - Eu quero - disse ela: - Um martini seco.
     Ele a olhou com estranheza:
     - Por que voc quer tomar um martini seco?
     - Por que quero, essa  boa. J tomei dois!
     - , mas comigo voc no vai tomar coisa nenhuma.
     - Quem  voc para me proibir?
     - Voc se esquece que sou seu marido.
     - E da?
     A arrogncia dela o confundiu:
     - No quero que voc beba. Pode fazer mal, no estado que
voc est.
     - A responsabilidade ser toda minha. Voc acha que no
tem culpa do meu estado...
     Amadeu respirou fundo:
     - Maria faz muito tempo, quando eu era menino, meu pai...
        - J sei - cortou ela: - A histria do passarinho que voc
matou.
        - No matei. No reconheo o direito de me acusar de ter
matado um passarinho, em quem teve coragem de envenenar um
gato.
        -  prefervel envenenar um gato a envenenar uma mulher.
        O garom ainda  espera, interveio:
        - Trago ou no trago?
        - Traz - ordenou Amadeu entre dentes: - traz dois.
        Permaneceram em silncio, mesmo depois que o garom os
serviu.
        - Eu no devia beber - disse ele afinal, para si mesmo: - Hoje
estou com uma terrvel acidez no estmago.
        - Tome bicarbonato - gracejou ela.
        Ele fez que no ouviu:
        - Voc no vai beber seu martini? Vamos, beba.
        Ela evitava olh-lo:
        - Sabe de uma coisa? Mudei de idia. No quero mais.
        - No quer mais por que? Depois de j Ter tomado dois, pode
muito bem tomar mais um.
        - Tomei dois mas no com voc.
        - Por que voc pode beber com aquele tira e no pode beber
comigo? S porque ele  da polcia? Vamos, beba.
        O tom de voz dele era outro, enrgico, quase ameaador. Ela
ergueu a cabea em desafio:
        - No, no quero. Voc me d licena de no querer?
        Ele pegou o clice, ofereceu a ela:
        - Beba logo, vamos.
        Amedrontada. Ela tentou ainda recusar:
        - Por que voc est fazendo questo que eu beba?
     - Quem fez questo foi voc. Voc  que pediu. Agora beba.
     - Voc no queria que eu bebesse, agora insiste.
     - Estava com medo de que voc pusesse veneno no clice
como fez com Carmem h cinco anos, neste mesmo dia, neste
mesmo lugar, nesta mesma hora...
     - Que coisa macabra! - reagiu ela: - Pare com isso! Pr
veneno como? Nem toquei nesse clice, voc sim. Se tiver alguma
coisa nele, voc  quem ps. Se eu tomar e morrer, voc estar
perdido.
     - Eu j estou perdido - retrucou ele com voz rspida: - Acabe
logo com essa farsa. Vamos, beba.
     - Est bem, eu bebo - decidiu ela. - Mas espere um instante.
     Levantou-se sem mais nada e se dirigiu ao telefone. Amadeu
tambm se levantou e foi ao toalete. Regressaram alguns instantes
depois, quase ao mesmo tempo. Ainda de p, Maria pegou o clice,
virou-o de uma vez, e caiu fulminada.
Terceiro
                                1

     O comissrio Serpa desligou o telefone e voltou para a
mesinha a um canto, onde jogava damas com o escrivo:
     - Acabo de fazer uma jogada que  capaz de dar certo.
     - Voc acaba  de fazer uma bobagem que vai lhe custar caro
- tornou o escrivo: - Devia ter comido a minha dama.
     Num lance certeiro, comeu trs pedras seguidas, liquidando
com o adversrio. Depois apontou o tabuleiro:
     - Agora me responda a uma pergunta: isto aqui  um
tabuleiro preto com quadrados brancos, ou branco com quadrados
pretos?
     - Branco com quadrados pretos - respondeu o outro
prontamente.
     - Errou.
     - Preto com quadrados brancos, ento.
     - Tornou a errar.  de outra cor, com quadrados pretos e
brancos.
     Serpa riu, depois espreguiou-se:
     - Que delegacia mais esquisita esta nossa - falou para si
mesmo: - Como  que pode funcionar assim numa grande cidade?
O delegado nunca aparece, ningum aparece, quase no tem
expediente... Como  que pode? Que diabo de delegacia  esta?
Quede o movimento, o grande movimento que devia ter?
     Foi at a janela, debruou-se, olhou a rua:
     -  uma grande cidade...
     - Voc precisava ver isto aqui antigamente - comentou o
escrivo. - Como vai o nosso Miraglia?
     - Hoje fiz a reconstituio - Serpa sentou-se  mesa: -
Reconstituio  minha moda. Estou convencido de que no se
passou como est no processo.
     - Est convencido de que ele  culpado.
     - No. Estou convencido de que ela no se suicidou.
     - No  a mesma coisa? Acha que foi algum mais, ento? O
garom?
     - No. Foi ela mesmo. S que no foi suicdio. Para mim
houve troca de clices: o clice com o veneno era o dele, que ela
tomou por engano, quando voltou do telefone.
     - Ento ele  que ia se matar - concluiu Motinha.
     - Isso mesmo. Miraglia tinha acabado de descobrir que era
estril, no podia ter filhos. Ela estava grvida, dizia que o filho
era dele. Ele sabia que no era. Por isso resolveu se matar. Um
neurtico feito ele... Agora est l ameaando matar a mulher da
mesma maneira.
     - Ameaando se matar, voc quer dizer - corrigiu Motinha.
     - Isso. A histria se repete - e de repente Serpa se endireitou
na cadeira, aturdido. - Espere, que  que voc disse? Ameaando
se matar?
     Voltou-se vivamente para o telefone, tomou do fone. Ficou
aguardando linha, impaciente:
     - E eu que mandei que ela tomasse o clice dele, em vez do
dela! Ele est no bar, insistindo que ela beba. Ela me telefonou. Se
h alguma verdade nisso, ento esta hora ela est morta!
     Ps-se a discar, nervoso, mas Motinha lhe acenou para a
porta com a cabea:
     - Olha s quem est chegando.
     Serpa se voltou, deu com Maria Miraglia j dentro da sala.
                                  2

     - Que foi que houve? - perguntou o comissrio, aliviado e
abandonou o telefone.
     - Nada...
     Ela ficou andando em crculo, num passo displicente - dava
para perceber que havia bebido:
     - Fiz o que voc mandou: tomei o clice dele, e de uma vez
s. Fiz ainda mais: ca morta.
     - Caiu morta?
     - Ca morta. Assim - e ela relaxou o corpo, deixando-se cair
para trs.
     - Eh, que  isso? - Motinha se precipitou, mal teve tempo de
ampar-la:
     - Essa mulher no est boa de cabea.
     - E o Miraglia? - insistiu o comissrio: - Que  que ele fez?
Ficou l? Conte tudo!
     - Eu  que fiquei l, cada no cho. O garom levou o susto
da vida dele. Amadeu ainda me cutucou, e achando que eu estava
morta mesmo, fugiu correndo. Antes que ele voltasse para me
matar de verdade, me levantei e vim para c.
     - Essa mulher no est boa de cabea - repetiu o escrivo.
     Ela se voltou para ele:
     - Quem  que no est boa da cabea? Serpa, ensine esse
homem a me tratar com respeito.
     O comissrio no pde deixar de rir:
     - No ligue para isso no, filha. Ele  que nunca foi bom de
cabea. E voltando ao que lhe interessava:
     - Quer dizer que Miraglia est convencido de que matou
voc. Deu certo, ento. O clice dele, pelo menos, no estava
envenenado.
     - E era para estar? - reagiu ela: - Ento voc me mandou
tomar o clice dele achando que estava envenenado? Queria que
eu morresse?
     Serpa respirou fundo, impaciente:
     - O que eu quero  acabar com isso. Ningum mais vai
matar, ningum mais vai morrer. Vamos dar o caso por encerrado:
vai ver como ele ficar felicssimo quando souber que voc
ressuscitou.
     Ela o olhou com desdm:
     - E voc acha que ainda tenho coragem de chegar perto
daquele homem? Ele tenta me matar e voc diz que o caso est
encerrado?
     - Ele no tentou matar voc - disse Serpa pacientemente. -
Nem voc tentou se matar. Tudo imaginao.
     - Se no tentou vai tentar. Tanto assim, que eu quero retirar
a queixa. Cheguei  concluso de que a queixa tambm faz parte
do plano dele. O homem  to diablico, que previu tudo. Foi ele
que, insinuou que eu viesse me queixar. Com a minha queixa, ele
pode dizer que planejei tudo e que foi suicdio. Eu tenho direito de
retirar a queixa, no tenho?
     - Tem, filha, tem - e o comissrio ps-lhe a mo no ombro: -
fique tranqila. Mando retirar a queixa.
     Voltou-se para o escrivo:
     - Motinha, retirar a queixa.
     - Retirar a queixa - ecoou o escrivo.
     - Tornar sem efeito.
     - Tornar sem efeito.
     Serpa voltou-se para ela:
     - Est satisfeita? V com ele.
     Maria deixou a sala, seguida do escrivo.
     - Essa mulher no est boa de cabea - disse Motinha ainda,
antes de sair.
                                   3

     O investigador ps o vidro em cima da mesa do comissrio:
     - Bicarbonato.
     - E o mdico?
     - Disse que o homem esteve l sim, mas no fez exame
nenhum.
     - No fez exame?
     - Foi a mais de cinco anos. O mdico se lembra, por causa
do crime. No deixou que tocasse nele.
     - E ento no sabe se ele  estril - insistiu Serpa.
     - No    sabe     no.   Se   soubesse   no   informava.   Sigilo
profissional. Disse que s com exame de laboratrio. Miraglia no
quis dizer.
     - E o telefone?
     - A Companhia no tem como informar na hora: s dando
busca, e leva tempo. Nem assim garantem nada. A confiar no
garom, o telefone estava enguiado naquele dia - pensou Serpa:
Por que diabo ela fingiu que telefonava?
     - Bira, voc vai me trazer o Miraglia aqui.
     O investigador no precisou ir longe: no que transps a
porta, esbarrou em Amadeu Miraglia, que vinha entrando.
Segurou-o pelo brao:
     - Est aqui o homem, comissrio.
                                4

     Bira se retirou e Amadeu ficou ali pela porta, desconfiado,
sem dar um passo:
     - Que  que o senhor quer de mim? J soube o que
aconteceu?
     - Voc est preso, Miraglia - disse Serpa simplesmente.
     - Vim aqui por minha livre e espontnea vontade. No houve
flagrante. Conheo o meu direito.
     - Ah, conhece? No houve flagrante? Quer dizer que voc
admite que matou sua mulher.
     - Ela se suicidou, como a outra, para pr a culpa em mim. O
senhor sabe disso. Eu j tinha pedido garantia. Bem que avisei.
Agora est morta para sempre. Por que no me deixam em paz?
     O comissrio o olhou de cima a baixo, com desprezo:
     - O que me admira  voc, sabendo que sua mulher morreu,
fica a calmamente, pedindo que o deixem em paz. Que espcie de
homem voc ? No se comove, no chora a morte dela nem nada.
Nem ao menos sabe representar bem o seu papel.
     O telefone tocou, o comissrio atendeu:
     - Delegacia de Polcia. Ele mesmo. Calma, no precisa gritar!
     Ficou ouvindo em silncio. Apenas seus olhos se moviam,
refletindo surpresa.
     - No toque em nada - ordenou finalmente. - Feche o bar.
No deixe ningum sair. Como? Ah, no tem mais ningum. Pois
ento no deixe ningum entrar. Vamos j para a.
     Desligou voltando-se para a porta:
     - Fortunato! Bira!
     Apanhou no cabide o coldre com o revlver, colocou-o 
cintura e vestiu o palet, enquanto os dois corriam ao mesmo
tempo, sentindo a urgncia na voz do chefe:
     - Fortunato, no deixe esse homem sair at que eu volte. No
abandone um minuto seu posto a fora. Se for preciso, meta-o no
xadrez. Bira, venha comigo. Passou  outra sala, seguido do
investigador. Deu com Motinha ainda s voltas com Maria.
Chamou-o a um canto, contou-lhe rapidamente o que tinha
acontecido.
     - Eu disse que enquanto voc no visse um cadver, no
sossegava - comentou o escrivo.
                                 5

     Quando se viu sozinho, Amadeu Miraglia deixou-se cair na
cadeira, prostrado, escondeu o rosto nas mos. Assim Maria o
encontrou, ao deixar o escrivo e vir se despedir do comissrio.
     - Que  que voc est fazendo a? - interpelou-o.
     Ele descobriu o rosto e, ao v-la, ergueu-se, assombrado:
     - Voc!
     - Pensou que eu tinha morrido, no ? Como a outra, no ?
E ela avanou agressiva: - E agora? Que  que voc tem a dizer,
assassino?
     - Ento voc estava representando, tudo isso  uma farsa -
falou ele, fora de si: - No passa de um plano desse policial
cafajeste para me incriminar!
     - Cafajeste  voc - protestou ela.
     - Eu pelo menos no me finjo de morto.
     - No finge por que no  preciso. Voc j est morto h
muito tempo.
     Ele nem ouviu:
     - Fazer um papel desses, e ainda me acusar.
     - Voc  que veio aqui se inocentar. Dizer que eu tinha me
suicidado, como a outra.
     - Voc est ficando louca, mulher.
     - Louca, mas viva. A outra morreu e est morta, no est?
     - Morreu por que quis. O filho que era meu, e ela sabia que
eu sabia. Como voc.
     - Como eu o qu?
     - Voc sabe perfeitamente que esse filho que voc est
esperando no  meu.
       - Sei coisa nenhuma. Na hora de fazer, voc fez, e agora vem
me dizer que no  seu. Alm do mais, no estou esperando filho
nenhum.
       - Como no est esperando? Voc mesma disse...
       - Rebate falso.
       Ele ficou a olh-la fixamente, sem uma palavra.
       - Pare de me olhar assim! Nunca me viu? - e ela caminhou
em direo  porta. - Eu vou me embora, no tenho mais nada a
fazer aqui. Voc fica?
       - Tenho de esperar o comissrio.
       - Para qu? O que voc ainda quer com ele?
       - Ele me mandou esperar.
       - Se quer ficar, ento que fique, eu vou-me embora.
       - No posso ir. Estou preso - e ele tornou a se sentar.
       Ela se sentou na outra cadeira:
       - Pois ento tambm fico. Quero s ver o que voc vai dizer a
ele.
       E os dois ficaram calados,  espera, como num velrio, cada
um com seus pensamentos.
                                   6

     Voltando  delegacia, Serpa foi direto ao escrivo:
     - Sai dessa, Motinha. Um casal, em tudo igual ao caso do
Miraglia. O Lopes, da Percia, disse que nem precisava de
autpsia, para saber que foi estricnina. O pessoal da tcnica est
l com toda aquela papagaiada, batendo foto, arrochando o
garom, tirando digital da mulher. Tudo como no outro caso.
Falei: basta olhar na bolsa dela, gente. Olharam e encontraram a
carteira de identidade...
     - Quem era, afinal?
     - Uma mulherzinha qualquer a. Entrou com um sujeito,
ambos pediram martini seco, ela bebeu e caiu morta. A central vai
tomar conta, como da outra vez. S quero ver como vo sair dessa,
quando souberem que o Miraglia esteve l hoje. O Lopes trabalhou
no caso dele, conhece a pea. O depoimento do garom  uma
confuso dos diabos. Uma figura, esse garom. Um detalhe que
escapou a todo mundo, mas no a mim: ele me contou que
resolveu aproveitar o martini que o Miraglia acabou no tomando
e servir para o casal. Que  que voc acha?
     Em vez de responder, o escrivo exibiu-lhe um jornal:
     - J viu isto aqui?
     Era    uma    reportagem   da     srie   "Crime   para   Sempre
Insolveis", relembrando o crime do Martini Seco, cinco anos
antes, naquela data. Serpa correu os olhos, dobrou o jornal:
     - Deixa comigo, que eu quero ler com calma.
     O enigma, de certa maneira, passara adiante: ou o clice que
o Miraglia deixou de tomar tinha mesmo veneno, e isto o
incriminava, ou se tratava de caso inteiramente novo, que repetia
em todos os detalhes o anterior.
     No havia nada de estranho no fato de um casal pedir
martini seco num bar - era comum isto, acontecia todos os dias,
em todos os bares - martini seco era a bebida da moda. Mas outra
morte nas mesmas condies, exatamente no dia em que se
completavam cinco anos da anterior, seria uma espantosa
coincidncia, absolutamente inconcebvel - no fosse aquela
reportagem no jornal, relembrando o fato: poderia ter inspirado
algum maluco ou maluca - a fazer o mesmo. H doido para tudo.
     - Foi o que o comissrio comentou com o escrivo.
     - Eles esto a na sua sala - este avisou.
     - Eles quem?
     - Miraglia e a mulher.
     - Fazendo o qu?
     - Ela, no sei: dei baixa na queixa, ficou o dito por no dito,
e ela disse que ia esperar voc. Ele disse que est preso, voc
mesmo  quem prendeu. Andei puxando conversa com eles. Estive
pensando nesse caso...
     - E a que concluso voc chegou?
     - Concluso, propriamente, nenhuma. S que aquele detalhe
do telefone me intrigou. Se a outra ficou falando num telefone
mudo, a tem coisa. Ela estava fingindo no  mesmo? Com que
inteno? A de simular um outro, para fazer cime no Miraglia?
     - No creio. Ele j tinha motivo suficiente para Ter cime
dela, com a histria do filho, no precisava tanto.
     - Para ganhar tempo? Talvez. Tempo para qu?
     - Tempo para ele beber o martini que ela envenenou. E que
ela prpria acabou tomando por engano. Que  que voc acha?
     - Acho interessante - Serpa respondeu, pensativo. - Ento
ela teria tentado mat-lo, e no o contrrio.
     -  uma idia. Mas agora, com esse novo caso...
- De fato, o novo caso complica tudo.
E o comissrio passou  sua sala.
                                 7

     Amadeu Miraglia e sua mulher continuavam sentados,
praticamente na mesma posio, quando Serpa cruzou a sala,
resoluto, sem tomar conhecimento da presena dos dois. Tirou o
palet e o coldre com o revlver, dependurando-os no cabide.
Arregaou as mangas, afrouxou a gravata e foi postar-se  sua
mesa, em frente a eles. S ento lhes dirigiu a palavra:
     - At agora isso no passava de uma briguinha conjugal sem
conseqncia. Um jogo de empurra de marido e mulher, que vocs
dois vieram nos trazer. Ele vai me matar e dizer que me suicidei!
Ela vai se suicidar e vo dizer que eu matei! Como se a gente no
tivesse mais o que fazer. A polcia trabalha com fatos e no com
hipteses. Isto aqui no  consultrio sentimental. Nosso papel 
defender a sociedade e no resolver briga de casal. Tragam um
crime e o entregamos  Justia.  esse o nosso papel.
     Fez uma pausa para dar mais nfase ao que ia dizer:
     - Agora, estamos diante de um fato concreto, e dos mais
graves. Toda essa farsa que vocs dois armaram resultou na morte
de algum. Algum que acabou sendo a vtima fatal dessa loucura
de vocs. O cime doentio de um pelo outro ocasionou a morte de
um ser humano, uma mulher que vocs nem conhecem, que
jamais viram. Pois fiquem sabendo que sero responsabilizados
perante a Justia, atravs de inqurito competente, pela morte
ocorrida no dia de hoje, de uma mulher, por envenenamento.
     Calou-se. Os dois o olhavam, pasmados. Maria foi a primeira
a se recuperar.
     - Que histria  essa? Quem  responsvel pela morte de
quem?
     - No abra a boca, Maria - Amadeu advertiu em voz baixa: -
 mais uma armadilha. Qualquer coisa que voc disser pode nos
incriminar.
     - Incriminar por qu? - reagiu ela, exaltada: - No sou
criminosa, no cometi crime nenhum, no matei ningum. Teria
graa, eu que estou aqui para me defender contra algum que
quer me matar, acabar acusada de ter matado algum. Essa no,
comissrio Serpa! E no me venha com essa do papel da polcia
na defesa da sociedade. Eu sei muito bem o que vocs defendem.
Se voc sabe representar o seu papel, eu tambm sei representar o
meu. Responsabilizar perante a justia? Se quiser, responsabilize
esse a. Eu  que no.
     Serpa deixou que ela falasse  vontade, antes de retomar a
palavra, dessa vez com voz pausada:
     - Uma mulher acaba de morrer envenenada, tomando um
martini seco no mesmo bar em que vocs estiveram esta tarde.
Aquele clice em que ningum tocou foi servido pelo garom a
outro casal. A mulher bebeu e caiu morta. Estava envenenado.
     Ambos ouviram, compenetrados e tensos.
     - A central avocou o inqurito - prosseguiu o comissrio: -
Chamou a si as investigaes.
     - E da? - protestou Maria: - Onde  que voc quer chegar
com isso?
     - Quero chegar ao fato de que, embora uma anomalia na
administrao pblica faa com que a central avoque um crime
que deve caber  jurisdio do distrito onde foi cometido,  nosso
dever colaborar com o que esteja ao nosso alcance para que tudo
seja devidamente esclarecido. Assim informo que os fatos do meu
conhecimento, relacionados com o crime em questo, e que
implicam a responsabilidade de vocs dois, sero por mim
submetidos  considerao da autoridade superior, para as
providncias legais cabveis.
     - Sou obrigada a ouvir essa sua linguagem de relatrio? - e
Maria se ergueu: - Se continuar, eu vou-me embora.
     - Ningum sai desta sala sem ordem minha - retrucou Serpa
friamente.
     - Quer dizer que eu tambm estou presa.
     - Esto ambos detidos para averiguaes.
     Durante todo o tempo, Amadeu ficou calado, a olhar a
janela, abstrado.
     Era como se ele, deixando de escutar, se eximisse de
qualquer envolvimento. S teve um momento de perturbao
quando    Bira   irrompeu   na   sala,   dirigindo-se   excitado   ao
comissrio:
     - Fiquei l at agora. Chegaram afinal no Miraglia.
                                   8

     O investigador passou as suas informaes:
     - Ligaram os fatos pela reportagem de hoje no jornal. Eu no
entreguei nada, que no vou trabalhar de graa para os outros.
Mas o Lopes deu um aperto no garom e ele contou tudo: a
reconstituio hoje de tarde, o encontro do Miraglia com a mulher.
Confessou eu tinha servido de novo o martini que os dois
deixaram de tomar.
     - E o homem que estava com a vtima?
     - J foi detido. No h nada contra ele. Encontrou com ela
hoje pela primeira vez, no prprio bar. Estava l o Laerte, o senhor
se lembra? Assistente do comissrio Lira. O Laerte hoje  troo na
central, cunhado do delegado-adjunto. Conhece o Miraglia,
participou conosco do interrogatrio naquela ocasio. Pois o
Laerte j acionou a Capturas para prender o Miraglia.
     - Voc no contou que ele estava aqui? - falou o comissrio.
     O rosto do investigador se abriu num sorriso boal:
     - Claro que no! Acha que eu ia entregar o ouro aos
bandidos? O homem  nosso, comissrio. Podemos dar uma
voltinha nele antes de entregar.
     Bira se encaminhou em direo a Amadeu. Este se ergueu,
afastando-se para o fundo da sala:
     - No adianta fugir, belezoca - o investigador avanou para
ele: quero ver voc agora sair por a envenenando mulher 
vontade.
     - Comissrio - balbuciou Amadeu, acuado contra a parede: -
contenha esse homem. Se ele me encostar a mo...
     - Que  que acontece? - perguntou Bira, sem se deter.
     - Deixe ele em paz, Bira - ordenou Serpa.
     Antes que o investigador obedecesse, viu-se diante do
revlver do comissrio - descuido imperdovel num policial - Que
Amadeu acabava de arrancar do coldre, no cabide:
     - Se der mais um passo, eu atiro - avisou ele.
     Bira se refez do espanto, sacou sua arma. Serpa se
precipitou, tentando segur-lo, era tarde. A um estampido seguiu-
se outro. O empurro do comissrio desviou o tiro disparado pelo
investigador, que foi acertar Maria no peito, ela tombou morta. O
da arma de Amadeu atingiu Bira na barriga, e ele caiu
pesadamente de joelhos, desabou de cara no cho.
     Fortunato surgiu correndo na porta do corredor, arma em
punho, ao mesmo tempo que Motinha surgiu da sala dos fundos,
sacando seu revlver. Ambos atiraram. O disparo do guarda
atingiu o escrivo, que passava na sua trajetria e caiu sem vida,
o de Motinha fez tombar morto o comissrio, que rodava sobre si
mesmo no meio do fogo cruzado, sem ter onde se refugiar. Outro
tiro do guarda espatifou o tabuleiro de damas na mesinha a um
canto. Amadeu tornou a disparar e acertou Fortunato bem no
rosto.
     Cambaleando porta afora, o guarda caiu morto no corredor.
nico sobrevivente daquele morticnio, Amadeu Miraglia, sem se
deter um segundo, jogou longe o revlver, subiu no parapeito da
janela e atirou-se no espao.
     O telefone comeou a tocar. Ficou tocando, insistente, por
longo tempo.
     Era Janete, l do teatro, querendo saber se Serpa poderia
jantar com ela naquela noite, depois do espetculo. Mas j no
havia ningum para atender.
